terça-feira, 1 de junho de 2010

(In)Confidências

Diz que hoje é dia da criança.
Todos os anos, enquanto fui criança (e uns aninhos depois em que já tinha passado a etapa), adorava este dia. Primeiro porque "obrigava" a minha família a satisfazer-me algumas das minhas vontades. E segundo porque ansiava o presente que a minha avó me comprava. Não era nada de especial, nada de grandioso, era simplesmente uma pequena lembrança, um miminho escolhido por mim. E por incrível que possa parecer uma dessas prendas é das que mais recordo. Uma caneta. Repito. Uma caneta. Cor-de-rosa e branca, com um copo, uma palhinha e um ratinho em forma de boneco que se levantava e baixava conforme se carregava. Guardei-a durante anos e ainda a teria comigo se não se tivesse perdido entre as várias mudanças de casa que já fiz desde essa altura.
É claro que há que contextualizar este acontecimento no tempo, grande falha minha. Estavámos nos primeiros anos dos anos 90, onde as crianças ainda eram crianças. Onde se brincava à apanhada no recreio. Ao macacaquinho do chinês e se saltava ao elástico, onde posso confessar que era mesmo pró. Onde se partilhavam as gorila e se molhava o chupa-chupa nas petezetas. Onde ao som do primeiro toque, obedeciamos à chamada da Dona Guida e entravámos calados e ordeiramente na sala de aula. Onde a professora nos ensinava as letras, os números e a regras da boa educação.
Hoje passados mais de quinze anos, o meu irmão só sabe jogar à bola e às lutas. Por ele, as tardes são passadas entre a playstation, o gameboy e o Magalhães. Não sabe estar quieto e calado nas aulas. Responde aos professores, fala das personagens dos Morangos com açúcar como se fossem reais, já teve mais castigos e já disse mais asneiras que eu em vinte e cinco anos de vida. Diz que as meninas só sabem falar de maquilhagem, das marcas de roupa e que os pais têm que fazer o que elas mandam, senão não cumprem a lei e os direitos das crianças.
Duvido que eles alguma vez façam colecção de canetas como eu fiz. Ou de cromos ou de porta-chaves. E de folhas fofinhas. E que ao receberem uma a mais para a colecção, achem isso o melhor presente do Mundo.

12 comentários:

Anónimo disse...

Fantástico!!Sem palavras...
Volto a repetir o que disse noutro comentário quando for grande quero escrever assim!Apesar de ser mais velha que tu LOLOL :))
Também sou desse tempo,era bom ser criança nesses anos!
*Beijinhos*
Maria

Cat disse...

Está lindo, querida. Como as coisas mudam tanto em tão pouco tempo... Em menos tempo ainda. Tenho 5 anos de diferença da minha irmã e 7 do meu irmão e eles são como descreves o teu. É triste.

Pinkk Candy disse...

outros tempos mesmo, gostava muito que as coisas mudassem para melhor, porque desejo uma outra infância para o meu filho.

=)

kiss

Poetic GIRL disse...

É mesmo isso tudo. A vida tinha outro sabor eu acho. Lembro-me de coleccionar calendários, bloquinhos coloridos! oh eu era tão feliz naquela altura, quem me dera ainda ser criança, mas naqueles tempos! bjs

L'Enfant Terrible disse...

Tal como o tempo muda as coisas, também as gerações mudam! Contudo o certo é que a geração anterior crítica sempre a que vem a seguir e vice-versa! Mas creio também que no dado momento em que estamos à uma pura perda de valores, sobretudo no que diz respeito às coisas simples, um completo niilismo cultural e moral que ultrapassa em muito uma qualquer natural guerra geracional!

Malinha viajante disse...

Anónimo: Maria, eu é que fico sem palavras...
Bigada ;)

Poetic Girl: Bloquinhos coloridos! Do que me foste lembrar é verdade, as folhas fofinhas como lhe chamavamos, vou acrescentar no post.
Thanks pelo recuerdo ;)

Anjo De Cor disse...

Eu sou mais velha 10 anos que a minha irmã mais nova e não noto essas diferenças que falas, noto que no meu tempo haviam mais dificuldades para algumas coisas, teve + oportunidades e tudo + facilitado isso acho que é verdade, de resto acho que dava valor exactamente as mesmas coisas...as mesmas brincadeiras, os brinquedos passavam de umas pras outras (3 meninas)...
Beijinhos e feliz dia da criança ;)

sophia disse...

Isso é mesmo verdade. Lido com crianças e noto como agora só se preocupam com as roupas, os cabelos, a aparência e por aí. Depois, por outro lado, não apreciam as coisas como nós apreciávamos antes, parecem nem saber o que é jogar às escondidas e às apanhadas. O mais engraçado é que eu tento falar-lhes de brincadeiras que fazia, eles acabam por se mostrar interessados e quando experimentam divertem-se imenso e depois ensinam aos outros colegas

Rita G. disse...

Tens muita razão, as crianças de hoje não brincam como nós o fazíamos. Eu fazia colecção de calendários, selos, tinha tudo arrumadinho em pastas:) Bons tempos! Bj:)

Malinha viajante disse...

Anjo de cor: 10 anos mais velha que a tua irmã mais nova? Logo ela tem a minha idade (talvez menos 1 ou 2 anos), logo faz parte da minha geração e viveu as mesmas coisas daí que não haja grandes diferenças!
Refiro-me às crianças de hoje, nascidas já neste século que não sabem nem apreciam as coisas boas das infâncias passadas...
;)

R* disse...

Tens mesmo razão. Eu lembro de tudo isso. De saltar à corda, jogar ao elástico, dos chupa-chupas, dos cãezinhos que saiam nos bollycao, de haver tazos, berlindes e matutolas para brincar. É incrível como estes miúdos de hoje em dia não ligam mesmo nada a isso. São cada vez mais mimados e mal educados. É triste mas a verdade é que não sei quando isto vai parar...

Malinha viajante disse...

R*: Sad but true, bem-vinda aqui à casa!
;)