quarta-feira, 10 de março de 2010

O ano da morte de Ricardo Reis

É sempre complicado escrever sobre Saramago. Os livros falam por si. Talvez este não seja um dos mais conhecidos, mas quando se trata de juntar a sua escrita a Fernando Pessoa, retrocedermos à Lisboa dos anos 30, aos costumes, tradições e vivências do ínicio de século, das minhas mãos já não sai. A verdade é que me perco em tudo o se que relacione com história. Se for bem contado, melhor ainda. Gosto de sentir saudades de uma época que não vivi. Gosto de me imaginar a caminhar pelas ruas que hoje piso, sabendo que há muitos anos por ali passaram homens e mulheres vestidos a rigor, de chapéu e sombrinha, que educadamente cumprimentavam conhecidos e trauseuntes, tomavam chá ao fim da tarde no Chiado e falavam sobre política ao almoço.
Saramago escolhe Ricardo Reis como fio condutor de toda esta trajectória. E porquê? Se fizermos uma leitura rápida sobre a sua biografia, reparamos que não consta nenhuma data de óbito. Pegando neste detalhe, aventura-se a criar um heterónimo de carne e osso, dando vida ao seu último ano. O que teria sucedido se Ricardo Reis realmente tivesse existido?
Teria regressado do Brasil, passados dezasseis anos de ausência, por altura da morte de Fernando Pessoa. Médico e poeta, chega a Lisboa nos últimos dias de 1935 e instala-se no Hotel Bragança. Salvador, gerente do mesmo não deixará que nada falte ao senhor doutor. Aí conhece Lídia, criada e amante. Aquela que ao mesmo tempo lhe limpa o quarto e lhe aquece os pés durante a noite. E Marcenda, menina de boas famílias, filha do Doutor Sampaio que todos os meses acompanha o pai a Lisboa para fazer os tratamentos que prometem fazer renascer o seu braço esquerdo. Enquanto isso, o pai aproveita para pôr os assuntos em dia com uma-companhia-feminina-que-cá-arranjou. E Victor, agente de autoridade, sempre com o fim de manter a calma e ordem pública, começa a vigiar o doutor, deixando o rasto de odor a alho por onde passa. E Fernando Pessoa, que começa a visitá-lo. Mas esse não estava morto? Estava, mas vinha na mesma. Então e quando estavam os dois quem é que se via? " A si, ou melhor, um vulto que não é você nem eu, Uma soma de nós ambos dividida por dois, Não, diria antes que o produto da multiplicação de um pelo outro".
A sorte de Ricardo Reis foi ter decidido acompanhar Fernando Pessoa, passados nove meses. Não ficou cá para assistir ao avanço do fascismo na Europa e ditadura de Salazar. "Então vamos, disse Ferando Pessoa, Vamos" Nem tão pouco ao nascimento do seu filho com Lídia.
Mas isto claro, não foi mas poderia ter sido assim.
Acredito que nem mesmo os não-leitores de Saramago, vão ficar indiferentes a este livro. Não é chato, maçudo, nem trata dos tão-comentados-temas-polémicos-típicos-do-autor. É uma viagem ao mundo heteronímico de Pessoa, em que Ricardo toma uma dimensão tão real que no fim é díficil acreditar que nunca tenha nascido.

15 comentários:

Pinkk Candy disse...

eu já li este livro há anos, e na altura senti um misto de fascínio e tédio (?!), confesso! se fosse nesta altura da minha vida quiçá tivesse uma outra opinião, na altura que o li, adorava Saramago e especialmente Fernando Pessoa, não quero com isto dizer, que já não adoro agora, mas já não sou fã com antes! mudei muito, nos dias que correm é dificil achar algo arrebatador, e sinto, sinceramente a falta de me sentir assim novamente arrebatada por um livro, por um escritor!^^

xoxo

ps.: se tivesses mais inspirada, escrevias um livro, just kidding, fizeste uma excelente crítica! =)

Girl in the Clouds disse...

Adorei este livro, um dia hei-de voltar a ler. Considero que é um dos melhores dele.

WJ disse...

Fiquei com vontade de ler o livro. Beijinhos

Hyndra disse...

Foi o primeiro e único livro do Saramago que eu tentei ler. Tenho livros dele mas ainda não li nenhum porque não tenho paciência para gente que atropela os pontos finais.

Esse de que falas e tão bem mostras um pouquinho daquilo de que trata a história, já peguei nele umas 3 vezes para o ler. Parece-me interessante, mas chego a um ponto que já não me apetece avançar mais. E eu que até gosto de Fernando Pessoa!

Malinha viajante disse...

Pinkk: Os livros têm significados diferentes sobre nós consoante a altura em que os lemos, true ;) Mas quando se gosta de um escritor, gosta-se sempre! Depois temos a tendência de gostar mais de uns livros que outros, gostos pessoais. Há por aí muitos arrebatadores é uma questão de escolher bem!
Bigada ;)

Girl in the clouds: Partilho da mesma opinião, considero um dos melhores. Também gostei muito do "Homem duplicado", por acaso já leste?

Malinha viajante disse...

Hyndra: Pontos finais ele não atropela, dado que é a única pontuação que põe ;)
Não descansei enquanto não acabei estava ansiosa por saber o final. Os encontros entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa são das melhores passagens do livro.
Já me aconteceu uma situação muito parecida com um escritor muito conhecido (não é português), lido por imensa gente. Tentei por duas vezes ler (e este tem pontuação normal), mas não saí do 3 capítulo. Talvez tente outra obra daqui a uns tempos...;)

Just Me...S disse...

Bem...olha que perco o amor ao dinheiro e a embirração que tenho com Saramago e compro este!!! Se não gostar bem me podes ouvir!!! lol

Sou como tu, adoro ler sobre Lisboa antiga. Já leste Eça de Queiróz? Adoro! O Primo Basilio por exemplo é muito giro! Sei que há outro mas agora não me lembro. Depois digo-te.

Beijoca doce

Just Me...S disse...

Haaaa...o que tens na mesinha de cabeceira é muito giro!!! Tenho todos dele e adoro. O melhor é o "Dormindo com Salazar" ( acho que é este o titulo ), o primeiro dele.

joca

Malinha viajante disse...

Just Me: Tadito do Saramago lol
Já li alguns de Eça, também gosto muito.
O do Domingos Amaral é "Enquanto Salazar dormia". É fantástico, amei de paixão, um dos meus livros favoritos de sempre! Aliás já falei desse num post há coisa e ano e pouco.

Cat disse...

Eu adoro Saramago duma forma inexplicável. E Pessoa também. TENHO DE LER! (Há tantos livros que "tenho de ler").

anf disse...

Malinha sabes a minha relação com os livros do Saramago, mas estou quase convencida a ler esse, vou fazer como a Just me se não gostar envio para tua casa.
beijinho
Tu lês muito, isso sai caro, ganhaste o euromilhões, ou lês na livraria?

anf disse...

Malinha sabes a minha relação com os livros do Saramago, mas estou quase convencida a ler esse, vou fazer como a Just me se não gostar envio para tua casa.
beijinho
Tu lês muito, isso sai caro, ganhaste o euromilhões, ou lês na livraria?

anf disse...

Malinha sabes a minha relação com os livros do Saramago, mas estou quase convencida a ler esse, vou fazer como a Just me se não gostar envio para tua casa.
beijinho
Tu lês muito, isso sai caro, ganhaste o euromilhões, ou lês na livraria?

Malinha viajante disse...

Cat: É o que eu disse no teu blog querida, temos sempre opiniões iguais em tudo ;) Se soubesses a minha lista do "tenho de ler"...

Ana: Vocês embirram e depois deixam escapar livros fantásticos! Eu sei que há muita gente que não gosta de Saramago, é perfeitamente legítimo, olha se todos gostassemos do amarelo que seria do azul? Como gosto é díficil não gostar dos livros. Já cá tenho um em casa não preciso de mais exemplares LOL ;)

ps- Gasto bastante dinheiro em livros sim, mas também leio alguns que são emprestados, além de me oferecerem bastantes. Não ganhei o euromilhões (primeiro tenho de começar a jogar) e na livraria não dá, só mesmo para dar uma vista de olhos rápida ;)

andreia disse...

Nunca li este livro, porque ainda não tive coragem para ler Saramago... mas um dia leio! Já pensei nisso também, como era viver nessa época... devia ser giro!

Beijinhs****